Em 1991 a ACENIS realizava o Festival do Chopp Brahma, em Apodi

Encabeçado por Gilberto, dito - o “doido” -, se não, não teria realizado diante de tantos obstáculos. Estava, ele, à frente da ACENIS como presidente desta entidade estudantil.

Em 1991 registramos em Apodi fato memorável – O Festival do Chopp Brahma – promoção Associação Cultural de Estudantes de Nível Superior – ACENIS – Apodi-RN, principalmente pelos envolvidos no evento, não hão de olvidar jamais, pois se tem muitos dados a narrar!

Como relíquia, já tinha dado como perdida, explico: em dezembro de 2021 fui arrumar o guarda-roupa grande de minha mãe (dona Sulinha), que se encontrava acamada, debilitada da saúde, me deparei com precioso achado – a caneca do festival do chopp! Logo passei WhatsApp para o amigo de infância e contemporâneo da faculdade Bililica, com fotografia da mesma, procurando saber em que ano realizamos a festa. Não soube precisar, ficou em dúvida se em 1989 ou em dezembro de 1991, declinando mais para esta última data. Logo repassou o número de Gilberto Veríssimo de quem me valeria dos dados que procurava saber, dando retorno pelo whatsapp em 05/01/22. Não, não respondeu, ficou de conversarmos em abril, mês de comemorar o seu aniversário no qual fui, antecipadamente, convidado e seriam também os demais envolvidos na estruturação do festival do chopp, com objetivo de relembrarmos deste grande
acontecimento estudantil juvenil. Aguardar esse futuro encontro para pôr em dia os detalhes dos acontecidos. Com pressa em começar a rabiscar dados, no afã de colher detalhes dos acontecimentos, buscamos em outras fontes, eu e Bililica a entrar em contato com vários colegas da época que estiveram bem próximos colaborando com a ACENIS e o festival.

Encabeçado por Gilberto, dito – o “doido” -, se não, não teria realizado diante de tantos obstáculos. Estava, ele, à frente da ACENIS como presidente desta entidade estudantil. Na época estudante de sociologia da FURRN (atual UERN), militante político dos primórdios petistas do Apodi, abraçou a causa de soerguer a entidade, até então esquecida ou desativada. Como peças importantes, os que se
aglomeraram participando dela e do festival do chopp temos a mencionar, embora pecando se esquecermos nomes de outros por ficar no anonimato:

Gilberto Veríssimo Tôrres (Gilberto de Chiquinho de Olinto); Isauro Camilo de Oliveira Neto (Veira de Moço Preto); Laercio Carlos; Deon Leite; Aparecida Mota (de Estênio); Marlice Maia (de Galdino); Chiquinho e seu Irmão Zé Andrade; Evandro Sousa (de Mané Galdino); Ranikenes (de Severo); Russel (de
Mundeiro); Railton Dantas (Bililica); Nuremberg (Nurim de Bugue) e tantos outros não lembrados.

E contávamos com não estudantes: Emídio Faraó, os trabalhadores braçais e irmãos de Gilberto, este, o presidente da nossa representativa entidade estudantil.

Como bravatas para a realização do evento, a entidade sem dinheiro em caixa, porém, conseguiu Gilberto encomendar as canecas, por via telefônica sem despender de nenhuma quantia de dinheiro pago como entrada antecipada, comum em toda indústria que exigia como garantia parcela referente a um percentual do montante orçado. Diria, conseguiu na boa lábia, por via telefônica, conquistar o vendedor da empresa das confecções das canecas, a Monte Sião, do município de mesmo nome, localizada na microrregião de Poços de Caldas, estado de Minas Gerais. Em caixotes e bem embaladas em palhas chegaram os produtos em Apodi e foram, no primeiro momento, guardadas no imóvel da família Olinto Veríssimo, vizinha ao do comerciante Loá, da rua Moésio Holanda.

Para tanto, se procurou e contou-se com ajuda de comerciantes, em termos locais, dos relembrados dentre outros, foi preciso patrocínio da Fábrica de Doces Apodi, do senhor Edmilson Pereira; Panificadora Costas, do senhor Zé Bolacha; Casa dos Ferros, de seu Leonildes; Câmara Municipal de Apodi; vereador
Tantinho; da PMA (Simão Nogueira) e também da PMFG (Hugo Costa); com propaganda na própria caneca dos respectivos símbolos das suas logomarcas. A estes, em troca foram dadas canecas e senhas para entrada da festa.

Caneca do festival de chopp.

Esta relíquia pertence a Nurim de Bugue.

Alugou-se uma casa para a sede e ponto de apoio da ACENIS na rua Antônio Lopes (casa próxima da atual academia de Francisquinho), local onde fazíamos reuniões e guardava o acervo da nossa associação, também servindo de mini serigrafia à confecção de faixas alusivas ao tão sonhado festival. Lembro em que certo momento se via o desânimo em muitos colegas e o tempo passando. Bililica e eu fomos sozinhos ao noitecer de certo dia afixar nos postes da praça da matriz enormes faixas propagandísticas do evento, com data, hora, local e valor da caneca. E assim colaborávamos como podia!

Quando as canecas chegaram, 2500 unidades, vendíamos na feira livre de Apodi. Lembro-me que colocamos expostas à venda embaixo da calçada da antiga loja A Sertaneja`, na rua Dix Sept Rosado, ao lado da cantina São Raimundo, devido serviço de som (alto) montado, o proprietário daquele comércio veio tomar satisfação pois estávamos incomodando e atrapalhando o seu comércio. Baixouse o volume do som.

O objetivo da ACENIS era divulgar o festival para que de toda a região entorno de Apodi pudesse vir bastante gente. Para tanto, fomos nas emissoras de rádio de Mossoró; estivemos no programa da emissora da rádio Tapuio, com DixHuit Rosado onde divulgamos rodando a vinheta elaborada previamente do futuro evento, abriu-se espaços para falações, entrevistas com Gilberto ao microfone.
Embora estivéssemos diante do grande orador, político, intelectual da família Rosado, nos recebeu com simplicidade falando do seu tempo de estudante, de um festival de chopp que participou na Grécia, sai dali admirado pela oportunidade e pelo tempo que nos foi dispensado. O termo vinheta até então desconhecia, a partir dali, entrou no meu vocabulário, são estas vagas lembranças que ainda trago
comigo.

O festival realizou-se no parque de vaquejada tendo como banda contratada, para parte dançante, por nome – Chaplin, conforme bem lembrou o participante da festa Silvano de Vancir, que colocava manteiga nas canecas com pretexto de tal substância suprimir a espuma do liquido e quando abria as torneiras das pipas, barris, despejando-a era de ficar só o puro malte da cerveja, sem a espuma, outros colocavam confeitos com o mesmo objetivo, lembrou Veira. A sobra do chopp, dos 5000 litros, em baldes e tambores foi bebida no alpendre da casa de Gilberto, às margens do córrego das Missões. Ainda, Silvano relembrou de muitos convidados para degustarem o resto farto da bebida alcóolica. Foram vários que saíram bêbados e não esqueceu do amigo Cheirinho pelo porre que tomou. Para Silvano o festival de chopp da ACENIS foi o último que aconteceu no Apodi.

Emídio relembrou que quando o ônibus da banda chegou ao Apodi, Gilberto nos seus momentos de normalidade longe da lucidez atrelou o ônibus ao trator agrícola de seu pai e saiu puxando pelas ruas fazendo a propaganda da festa. No mais confirmou: “Ôh banda ruim! ”

Um fato que Gilberto nunca esqueceu, de toda vez que nos encontramos ele faz questão de rememorar. Na sede, tínhamos uma espécie de atelier fazendo cartazes e painéis, faixas, etc., tendo o colega Emídio como o artesão serigráfico. E lá tínhamos colchões nos quartos. Certo dia cedo chegou Gilberto e percebeu que em uns dos colchões denunciava um acontecimento extraordinário no recinto, suspeita de pintadas de sangue. Logo levantou-se suposição de alguém ter tirado e “vazado líquido da antiga vasilha dita cabacinha”. Mas não, quem tinha ficado com a chave da sede, a suspeita, com namorico com uma veterana não era marinheiro de primeira viagem. Como também a moça que morava por ali próximo, era apenas amiga do casal. Alguém estava em fase “daquelas” e por descuido deixou, sem perceber, cair tintas com marcas no colchão como se de sangue fosse… ainda hoje, para Giberto, há controvérsias!

Os estudantes de Apodi, naquele tempo, que se deslocavam durante a semana para Mossoró, à FURRN, viviam uma via crucis pelas péssimas condições da estrada, buracos feitos crateras lunares que dificultava o tráfego levando a viagem durar umas duas horas, quando antes se faria em uma hora. O embargue da ida dos estudantes antecipado, jantando antes da hora habitual para chegar a tempo às aulas e do retorno a altas horas da noite nos deixávamos cansados e sonolentos para retomar tudo de novo, no dia seguinte. Coitadas das estudantes donas de casas, com filhos e trabalho em escolas dando aulas durante o dia, faziam das tripas coração para dar conta dos estudos da faculdade. Uma realidade que poucos aguentaram. Além dos períodos do ônibus, vez por outra, se encontrava quebrado deixando muitos sem poderem ir assistir às aulas.

Foram poucos estudantes que se empenharam para reestruturar a ACENIS, se fazia necessário como ponto de um órgão defensor, questionador e de luta pelos estudantes carentes junto aos políticos locais para ter acesso ao curso superior e ao transporte coletivo do município gratuitamente. Muitos viam em Gilberto como um sujeito desorganizado, cheios de projetos, ideias grandiosas, aventureiras, estapafúrdias e com poucas chances de galgar êxitos nos seus intentos. Eu o via como alguém merecedor de atenção e que precisava de apoio, não poderia deixá-lo só, juntamente com Bililica nos integramos procurando ajudar para realizarmos o festival em prol da entidade, diante dos pessimistas e arredios a causa. Ao realizarmos o festival foi como que auferíssemos o gosto do êxito diante dos colegas estudantes negativistas, muitos deles de melhores condições socioeconômicas, de poltrona cativa no ônibus, nem sempre fazia a permuta da mesma, com metade do caminho viajando em pé, morto de sono e fome (!?!). Então o objetivo do festival era angariar dinheiro para comprar um ônibus!

Estas foram as resenhas do saudoso festival. Depois de ter transferido meu curso para UFRN perdi os contatos, soube depois, como empreendimento feito do lucro que restou da festa do chopp, montante impossível de adquirir ônibus novo, depois de tudo pago, que foi aplicado numa compra de motocicleta nova no valor de 27 mil cruzeiros e pouco não aguentou o rojão de Gilberto, terminando encostada no ferro velho, nos entulhos de carcaças de automóveis, no terreiro de sua casa (!?!).

Eis um acontecido que depois de 30 anos registramos para mostrar aos demais estudantes apodienses de hoje, da era das tecnologias do computador, do telefone celular smartphones, tablets e outras alternativas de estudos fáceis, de como era difícil estudar almejando o canudo de papel (a busca do diploma superior) fora de Apodi, para prestar concurso e trabalhar.

 Ainda, como fecho, faz-se oportuno citar os criadores da ACENIS e em seu contexto do surgimento no fim dos anos 70, por apodienses abnegados pelo desenvolvimento da sua terra. A ACENIS foi criada em 14 de janeiro de 1978 por grupos de estudantes apodienses cursando universidades fora de Apodi, com objetivos dentre outros  de promover a tradicional Semana Universitária, onde resgatariam a cultura local, com eventos esportivos, bailes, gincanas, palestras com temas de interesses da comunidade, etc. tendo como membros da primeira diretoria: Pedro Terceiro de Melo (Terceiro de Gonzaga); Carlos Alberto da Costa (Carlos de Leonildes); Raimundo Nonato Maia da Costa (Raimundinho de Boré);  Fátima Martins dos Santos (irmã da enfermeira Maria de Jesus, do SESP); Gilberto Sena; Ivo Freire; Tatão Nogueira e Ivaldo Costa de Oliveira (Ivaldo de Leci), dentre outros participantes engajados para sua fundação.

Lutaste e alcançaste, estudaste e aprendeste. Trabalhaste com ardor sem resmungar a luta, pois faz parte do gosto da vitória pelo pouco que tens! 43 anos e 30 anos depois da criação da ACENIS e do festival do chopp, respectivamente, estamos a contar as lembranças de um tempo agridoce, sofríamos mais gozávamos! Estudantes apodienses de hoje: és de abraçar novas causas altruístas?

Nurim de Bugue

(Colaborou com informes: Bililica, Silvano, Emídio e Veira).

Este texto foi escrito em 06/02/2022, no dia 12 do corrente mês minha mãe veio à óbito).

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