O inferno, o pum e a eleição

O Brasil virou um inferno, um país desgovernado, à beira de um precipício econômico, inflação descontrolada, desemprego, tudo-de-ruim-ponto-com-ponto-br.

Frequentemente tenho a sensação de viver em outro país quando leio nossos sites de notícias, ouço rádio ou assisto a jornais na TV. O Brasil virou um inferno, um país desgovernado, à beira de um precipício econômico, inflação descontrolada, desemprego, tudo-de-ruim-ponto-com-ponto-br.

A nossa imagem nas telinhas é a das grandes cidades, onde vive –ou sobrevive, como queiram– cerca de 1/3 do nosso eleitorado. Não me espanta que a vida esteja ruim, por exemplo, no Rio de Janeiro, onde o governador é um ser invisível (se não me engano se chama Cláudio) e o prefeito Eduardo Paes resolveu acreditar no fim da pandemia e quer liberar geral.

Neste Brasil tornado desgraça, o país pária das nossas manchetes, até agora felizmente, ou infelizmente para muitos, não tivemos desabastecimento, não faltou arroz, feijão, leite, açúcar, óleo de soja, azeite, não faltou cerveja nem cachaça. Muito menos faltou combustível. Os preços subiram, isso todo mundo sente. Mas esta é a consequência mundial de uma pandemia que teima em não ir embora, muito mais pela falta de solidariedade e senso de coletividade do que pela invencibilidade do vírus.

Com todas as desgraças e perdas causadas pela pandemia, estas, sim, feridas difíceis de cicatrizar diante de mais de 600 mil mortos, nós que escapamos e seguimos vivos estamos assistindo ao espetáculo da fome voltar com toda força, não pela falta de alimentos básicos, mas pela ausência de políticas públicas de muitos dos governos estaduais e municipais. Pobres continuam sendo presos porque tentaram matar a fome roubando comida, ninharias de R$ 10, R$ 20, R$ 50. Isso não deveria estar acontecendo num país de 220 milhões de almas, produtor de alimentos suficientes para dar de comer a 1,5 bilhão de pessoas.

Os produtores de leite continuam trabalhando de segunda a segunda, sem domingo nem feriado, porque não há como deixar de ordenhar vacas. Uma vaca sem ordenha pode ficar doente, sofre de mastite e outras infecções. Quem produz ovos também vive para isso. É como um sacerdócio. O mesmo vale para quem produz proteína animal, porque os bichos precisam comer todos os dias. E é por causa deles que não tivemos desabastecimento.

Durante a COP26 os jornais estamparam manchetes falando do metano, da poluição do pum dos bovinos. Ora, por favor, todo mundo sabe que os grandes vilões da COP26 não foram os puns e arrotos do nosso gado, mas os governos australianos e chineses, produtores, consumidores e vendedores de carvão.

Eles não querem reduzir a produção, porque isso significaria menos geração de energia, contas de luz mais caras e queda no ritmo da produção. E a culpa da poluição é das nossas vacas. Tenham a santa paciência! Como se os rebanhos do Estados Unidos ou as vaquinhas mucho locas do Reino Unido não cometessem a inconveniência ambiental de emitir flatulências.

Quanto mais perto da eleição, maior o ataque de nervos. A nossa Amazônia virou um inferno ardente. Ninguém é capaz de falar sobre as pessoas que lá vivem, como se existissem apenas árvores e bichos. A população da Amazônia brasileira tem 1 dos piores IDHs, senão o pior, do país. Quem já botou os pés no interior do Amazonas ou do Pará sabe que muitas vezes as pessoas levam 3, 4, 5 dias para conseguir chegar num hospital. É tudo muito complicado. E cada vez que se faz uma obra de infraestrutura, os verdes e verdolengos europeus dão chiliques e os “ongueiros”, fricotes. Está aí a Usina de Belo Monte para provar isso, com seu lago desproporcional à sua capacidade de produção por puro lobby dos progressistas de plantão.

Há um temor generalizado, uma insegurança danada em relação a uma possível vitória do presidente Bolsonaro em outubro. A coisa anda tão intensa, que decidiram inverter a ordem da publicação das pesquisas e agora os números do 2º turno são anunciados antes dos números do 1º turno, como se para chegar ao 2º os candidatos não tivessem de passar pelo funil do 1º.

Existem hoje 3 nomes que todo brasileiro conhece: Lula, Bolsonaro e Sergio Moro. Entre eles, o único virgem de urna é Moro. Este é um dos atributos que fazem dele um candidato com grande potencial de crescimento, igualzinho ao seu similar francês Erick Zamour, que também faz campanha lançando livros e tem tirado o seno do presidente Macron. Ambos têm um discurso conservador, falam para uma parcela da sociedade que não vê solução na esquerda e não morre de amores pelos políticos tradicionais de direita.

Moro tem sido um candidato com fome de poder e atitude, coisa que anda faltando para a maioria dos seus adversários. Tenho visto muita gente disposta a votar no Moro. Vamos ver se ele será tão bom de largada quanto de chegada.

O Paraná já teve muitas promessas de presidenciáveis que nunca decolaram. Um deles é o senador Álvaro Dias, padrinho político de Moro. Outro foi o ex-governador Jaime Lerner, um urbanista genial. Também tivemos o ex-senador Afonso Camargo e o ex-governador e ex-ministro Ney Braga. Exceto Álvaro, todos sumiram na poeira. O tempo dirá se Moro ganhará a guerra ou terminará como a líder dos contestadores Maria Rosa, a Joana D´Arc paranaense da Guerra do Contestado (1912-1916), que, depois de quase vencer, perdeu a batalha e a vida para as tropas do Marechal Hermes da Fonseca.

Daqui até outubro de as coisas só vão piorar, porque esta eleição será a mais dura dos últimos tempos. Bolsonaro com dinheiro para pagar auxílio Brasil de R$ 400 começa o ano turbinado. Ele concentra suas energias para manter seu eleitor de fé e ampliar a votação mostrando que prometeu pagar uma ajuda maior para os mais necessitados e cumpriu. Lula faz o mesmo caminho quando foca no seu eleitor-raiz, elogia Cuba e Daniel Ortega, fala em controlar a mídia e a internet. Não é por acaso que eles estão na ponta.

Tudo pode acontecer até o dia do 1º turno. A única coisa certa é que até lá continuaremos tendo 2 Brasis: o pária da mídia e um outro que, fora da internet, das redes sociais e das telinhas, continua seguindo em frente com comida nos mercados, combustível nos postos e lutando para que o país não vire um inferno de verdade.

*Jornalista. Texto publicado originalmente no Poder360.

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