Bougainvilles e ipês

No Sertão, choveu, a paisagem se renova. A beleza se expressa de várias formas. Trepados sobre muros, nos quintais floridos, os bougainvilles enchem nossos olhos, são esplêndidos. Em cada canto têm um batismo diferente: primavera, três-marias, juá-francês, sempre-lustrosa, santa-rita, ceboleiro, roseiro, roseta, riso, pataguinha, pau-de-roseira e flor-de-papel. 

Também são encontrados em diversas cores, como branca, roxa, rosa claro, rosa, amarela, laranja e vermelha. Rubem Alves amava os ipês das montanhas de Minas. “Amo os ipês, mas amo também caminhar sozinho. Muitas pessoas levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam”, dizia, encantado com a beleza dos ipês coloridos das serras alterosas.

Os ipês foram cantados, decantados e versados por ele. “Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado”, poetizou. Rubem Alves também se entusiasmava com os ipês coloridos. “A beleza é tão grande que fico ali parado, olhando sua copa contra o céu azul. E imagino que os outros, encerrados em suas pequenas bolhas metálicas rodantes, em busca de um destino, devem imaginar que não funciono bem”, disse num longo e belo poema.

Gostar dos ipês, para ele, era uma questão de afinidade. “As outras árvores fazem o que é normal – abrem-se para o amor na primavera, quando o clima é ameno e o verão está pra chegar, com seu calor e chuvas. O ipê faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio”, escreveu.

Ele conheceu os ipês na infância, em Minas, vendo pastos queimados pela geada, a poeira subindo das estradas secas e, no meio dos campos, os ipês solitários, colorindo o inverno de alegria. “O tempo era diferente, moroso como as vacas que voltam em fim de tarde. As coisas andavam ao ritmo da própria vida, nos seus giros naturais”, recordou.

Como não tenho ipês, declaro meu amor aos bougainvilleas. Quando as palavras fogem, são elas que falam. Quem as ver na intensidade do seu vermelhão sobre elas dorme, sem sentir o tempo passar. 

Para o bougainville, meu olhar é de jardineiro. O jardineiro, mesmo tendo que cuidar de flores, rosas e espinhos, olha com amor para cada flor que brota ao amanhecer.

por Magno Martins

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